22 de novembro de 2007

Do rugby à filosofia

Hoje à noite começo a traçar um livro que comprei semana passada, indicado pelo Dan. O livro é uma quebra de paradigma.

Existencialismo Ilhado, de Don Clarke, mais conhecido como “The Boot”. Os fãs de rugby conhecem Don “The Boot” Clarke como o lendário fullback dos All Blacks, alcunha pela qual a seleção neozelandesa de rugby é conhecida. Ele foi um exímio kicker (daí o apelido). Aposentado como jogador, mudou para África do Sul, onde foi técnico do King David Victory Park High School, em Joanesburgo. Morreu há pouco, em 2002, vitimado por melanoma.

Para o mundo, ele não deixou só grandes jogadas, belos kicks, ótimos tackles e o exemplo de hombridade em campo. Boot também atacava noutra área. A filosofia.

Existencialismo Ilhado é um primor sobre o homem auto-insular. O livro é uma grande pensata filosófica de quase 800 páginas. Como numa matrioska sem fim, "the Boot" começa com um argumento simples e o vai aprofundando e multiplicando em níveis cada vez mais complexos, que se tornam relativamente simples quando passamos à próxima boneca-questão de sua matrioska. Biógrafos e estudiosos estão perplexos. Eu, muito mais.

Sabia-se que Don Clarke filosofava, principalmente ao final dos matchs, enquanto ingeria litros de cerveja, entoando e dançando o haka. É também conhecimento comum que lia compulsivamente a obra de Sartre, de Heidegger e de Kierkegaard. Mas o que poucos sabiam é que este livro é apenas o primeiro capítulo da obra que planejava escrever. Particularmente, não sei a quantas andava o conhecimento matemático do lendário fullback-filósofo, mas para escrever o que constava no seu writing plan (achado na sua escrivaninha) seria preciso que ele vivesse até o ano de 2158. Ele nasceu em 1933.

"The Boot" fez sua estréia no rugby pelo time neozelandês Waikato, aos 17 anos, em 1951. A primeira menção em seu diário sobre a corrente existencialista data de 1953 (mês incerto). Estudiosos clarkeanos presumem que a elaboração do Existencialismo Ilhado começou em 1954, por causa da anotação que fez no diário com a frase “Will write this bloody thing”, quase ilegível, datada de 11 de maio. Em quase cinqüenta anos, Don Clarke elaborou o primeiro capítulo de sua obra: um capítulo de 800 páginas. A dimensão do seu projeto é inimaginável.

“O homem está condenado a ser livre”. Com esta máxima de Sartre, Clarke começa o livro, fazendo um questionamento, à primeira vista, bobo e sem propósito, a partir de uma hipótese: “Se um indivíduo se tranca num caixão impermeável e impenetrável e é jogado à superfície das Fossas Marianas, ele não poderá fazer mais nada pra reverter a situação, nem qualquer outra coisa, até que definhe e morra; assim, o exercício de sua liberdade cessa ou é confirmado ad aeternum, uma vez que foi escolha sua tranca-se e afundar?”

Existencialismo Ilhado
Don Clarke
Tradução de Otto Barhoff. Aoraki Editora, 2007.

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